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Enteropatia induzida pelo glúten
ENTEROPATIA INDUZIDA PELO GLÚTEN
(DOENÇA CELÍACA)
Dr. Ivo Prezzi Denicol, médico gastroenterologista.
Nutr. Juliana dos Santos Vaz, nutricionista.
1 - DEFINIÇÃO
Doença da mucosa do intestino delgado, que ocorre após a ingesta de alimentos contendo glúten. Entende-se por mucosa a camada mais interna do intestino.
A palavra glúten, aqui utilizada, engloba todas os alimentos (proteínas) que podem desencadear a Doença Celíaca (DC), como as gliadinas e gluteninas (contidas no trigo), secalinas (centeio), ordeínas (cevada), seus híbridos (como o triticale, híbrido do trigo e centeio) e derivados (como o malte, da cevada).
Há necessidade da interação entre fatores ambientais, genéticos e imunológicos para o aparecimento da doença (patologia, moléstia).
Pode ocorrer em qualquer idade, mas o presente capítulo enfoca, principalmente, a DC no adulto.
2 – FATORES AMBIENTAIS, GENÉTICOS E IMUNOLÓGICOS
- AMBIENTAIS: são os alimentos (proteínas), citados no ítem 1, cuja ingestão pode iniciar a moléstia O alto conteúdo dos aminoácidos glutamina e prolina contidos nessas proteínas é, provavelmente, a causa mais importante dos danos que são observados no intestino delgado. As proteínas do arroz, milho, sorgo e painço não ativam a patologia.
- GENÉTICOS: representados pelos genes que a pessoa deve ser portadora para, possivelmente, apresentar a doença (ex. genes classe II - HLA DQ2 e DQ8).
- IMUNOLÓGICOS: definidos como sendo linhagens específicas de células e seus produtos que estão envolvidos na seqüência de eventos que estimulam o surgimento da moléstia (ex. linfócitos do tipo T, macrófagos, interferons).
3 – COMO SE DESENVOLVE A DC
Os produtos da digestão do glúten ricos em glutamina e prolina ligam-se às proteínas DQ2 e DQ8 (codificadas pelos respectivos genes), os quais ativam certos grupos de células (principalmente linfócitos) que determinam, através de vários caminhos bioquímicos, a produção de citocinas, substâncias essas que têm efeito danoso sobre o epitélio (mucosa) do intestino delgado, podendo causar a ele inflamação, atrofia e, raramente, úlceras e tumores malignos.
4 – OCORRÊNCIA (PREVALÊNCIA)
A prevalência varia entre 0,5% a 1% na população em geral. Familiares em 1º grau (filhos, pais e irmãos) de portadores da patologia têm a probabilidade de até 15% de apresentá-la. Tem ocorrência aumentada, entre outras enfermidades, em diabéticos que utilizam insulina e em pacientes que apresentam determinadas doenças auto-imunes.
5 - APRESENTAÇÃO CLÍNICA
Pode variar de leve desconforto abdominal até quadros de diarréia ou constipação intestinal; fezes amolecidas em grande volume, esbranquiçadas e malcheirosas, cansaço, distensão abdominal, ruídos intestinais aumentados, gases, perda ou aumento do apetite.
Há casos totalmente sem sinais e/ou sintomas (DC silenciosa: apresenta-se somente com alterações da mucosa intestinal e dos exames laboratoriais diagnósticos da doença) ou com um quadro clínico exclusivamente extra-abdominal, como anemia, osteopenia, osteoporose, enfermidades da pele, distúrbio de crescimento, perda de peso, infertilidade, irritação, aftas, depressão, distúrbios menstruais, neurológicos e outros.
As pessoas sem queixas clínicas e com mucosa normal (ou com alterações mínimas), mas com exames laboratoriais positivos para DC são consideradas portadoras latentes (ou potenciais) da moléstia.
6 - TRATAMENTO
Consiste no consumo de alimentos totalmente isentos de glúten. Logo, trigo, centeio e cevada, seus híbridos e derivados devem ser excluídos da dieta. A ingestão da aveia, apesar de ser um cereal estruturalmente diferente do glúten, permanece proibida devido à contaminação potencial desse grão, durante o seu beneficiamento, com outros grãos que contêm glúten.
Para segurar que a dieta esteja correta, é fundamental que o portador dessa patologia adquira o hábito de verificar a rotulagem dos alimentos, como também de questionar sobre os ingredientes e a forma de preparo daqueles, principalmente quando as refeições não são realizadas em casa. Somente as farinhas e os alimentos que apresentam em suas embalagens a descrição "sem glúten" devem ser consumidos. Algumas orientações para a escolha, substituição e preparo de alimentos encontram-se nos Quadros 1 e 2.
Após iniciar a dieta, a melhora não significa, necessariamente, que o intestino esteja integralmente recuperado. Caso o glúten volte a ser consumido, os sinais e/ou sintomas podem demorar a reaparecer, o que induz uma falsa idéia de remissão da moléstia. Pacientes que iniciam e suspendem a restrição ao glúten por repetidas vezes correm o risco de atingir um estado no qual não responderão mais ao tratamento.
A intolerância à lactose (açúcar do leite) pode surgir em conseqüência à DC. Nesses casos, um aporte alimentar com pouca quantidade de leite e seus derivados, associado a uma dieta livre de glúten, é indicado para o controle dos distúrbios decorrentes. Conforme a resposta clínica, retoma-se o consumo de lácteos posteriormente.
7 – ACOMPANHAMENTO
Após diagnóstico e tratamento, recomendam-se consultas trimestrais para avaliação dos resultados e possível detecção de associações e complicações da doença. Esse trabalho deve ser efetuado por uma equipe que inclua, no mínimo, médico gastroenterologista e nutricionista. O acompanhamento psicológico pode ser necessário.
A adesão a grupos de apoio ao celíaco traz aos pacientes importantes informes técnicos e nutricionais, além de conforto emocional.
Quadro 1. Lista de alimentos permitidos para uma dieta livre de glúten:
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Grupo Alimentar |
Alimentos permitidos |
Alimentos a evitar |
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Leites e derivados |
Todos os leites frescos, em pó, creme ou condensado; nata, coalhada, creme batido, iogurte, algumas bebidas achocolatadas comerciais. |
Leites e iogurtes que possam conter malte ou extrato de malte. Queijo fundido. Ler sempre os rótulos de requeijão |
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Frutas e Hortaliças |
todas |
Estar atento a preparações de suflê e tortas preparadas com farinha não permitida. |
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Farinhas, Cereais, Pães e Biscoitos |
Farinhas sem glúten: milho, arroz, mandioca, creme de arroz e milho, polvilho doce e azedo, amido de milho (araruta), fubá. Cereais de fubá, creme de arroz, canjica, arroz, trigo sarraceno (triguilho ou trigo preto), painço, amaranto, quinoa e flocos de milho. Todos os pães e biscoitos especialmente preparados, usando apenas as farinhas permitidas. Proteína hidrolisada de soja ou milho. |
Todos os cereais e demais produtos que contêm trigo, centeio, aveia ou cevada; farelo integral; germe de trigo; floco de cereais, malte; búlgaro (trigo quebrado para quibe), espelta, kamut e triticale. |
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Batata, Arroz e outros amidos |
Todas as batatas, arroz (todos os tipos), mandioca, talharim preparados sem glúten. |
Observar sempre os rótulos de misturas empacotadas destes amidos. |
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Leguminosas |
Sem restrições para o consumo de feijões, lentilha, ervilha, grão de bico e soja. |
A maioria das sopas e consumes em pó industrializados. |
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Carnes e ovos |
Todos frescos. |
Ler rótulos de carnes processadas, salsichas e embutidos. |
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Açúcares e Doces |
Em geral, sem restrições. |
Pó para preparo de cremes e pudins, alguns sorvetes, tortas preparadas com farinhas que contenham glúten. |
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Óleos e Gorduras |
Em geral, sem restrições. |
Estar atento a alguns molhos de saladas e maioneses. |
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Bebidas e Vinagres |
Café instantâneo e moído, chá instantâneo, pó de cacau puro, vinhos, runs, vodca destilada de uvas ou batatas. Aconselha-se o uso do vinagre de arroz, cidra ou vinho para preparar alimentos. |
Ovomaltine, leite maltado, cerveja, gim, vodca destilada de grãos, chás herbais que contêm cevada maltada ou outros grãos que contenham glúten. Todos os uísques devem ser evitados, incluindo o chamado uísque de milho, pois usam trigo, centeio, aveia ou cevada em sua mistura. O vinagre branco destilado deve ser evitado. |
Quadro2. Sugestões para melhorar a qualidade alimentar no preparo de alimentos com substituição da farinha de trigo:
- A farinha de soja deve ser sempre usada em combinação com outra farinha, e não como a única farinha da receita.
- Em receitas de pães, bolos e tortas que não contenham leite e ovos e que não utilizam a farinha de trigo é necessário um tempo de forno mais lento e longo.
- Quando se usam farinhas brutas no lugar de farinha de trigo, a quantidade de fermento deve ser aumentada. Para cada xícara de farinha bruta, usar 2 ½ colheres de chá de fermento em pó.
- Os muffins ou biscoitos, quando feitos com farinha que não a de trigo, apresentam uma melhor textura quando assados em tamanhos menores que os convencionais.
- Bolo feito sem farinha de trigo tende a ficar mais seco. Para evitar isso, deve-se procurar mantê-lo em recipiente bem fechado, ou mesmo congelá-lo.
- Possíveis substituições equivalentes de farinha de trigo em receitas: 1 xícara de farinha de milho; 1 xícara de fubá fino; 5/8 de xícara de farinha de batata; 7/8 de xícara de farinha de arroz.
Referências Bibliográficas
1. Ganc AJ, Ganc RL. Achados Endoscópicos nas Doenças Sistêmicas. In Livro da Sobed – Endoscopia Digestiva Diagnóstica e Terapêutica. Ed. Revinter, 2005. p. 698-99.
2. Mahan LK, Escott-Stump S. Terapia clínica nutricional para distúrbios do trato gastrointestinal baixo. In: Krause - Alimentos, Nutrição & Dietoterapia. 10ª ed. São Paulo: Roca; 2002. p. 649-55.
3. National Institutes of Health Consensus Development Conference Statement on Celiac Disease. Gastroenterology 2005; 128:(4 Suppl 1):S1-9.
4. Thompson T. Contaminated oats and other gluten-free foods in the United States. J Am Diet Assoc 2005; 105(3):348.
Contatos e endereços importantes para portadores de DC e seus familiares:
Associação dos Celíacos do Brasil (ACELBRA): www.acelbra.org.br
ACELBRA – Seção Rio Grande do Sul: www.acelbra-rs.org.br
Porto Alegre - www.acelbra-rs.org.br
Caixa Postal, 239 - CEP 90001-970
Fone: XX (51) 3224-7799
Caxias do Sul
Av. Júlio de Castilhos, 1232/32 Centro
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